disturb.io.grafia

🖋 Aeonauta

Sobre o conto1

Tabela de ConteĂșdo:

⊁ 0 - Prólogo
⊁ I - Juntos, mas sozinhos
⊁ II - Laços eletrÎnicos
⊁ III - Iniciar missão
⊁ IV - Tensão no våcuo
⊁ V - Segunda mãe
⊁ VI - AEON
⊁ VII - O acidente
⊁ VIII - Perdas e promessas
⊁ IX - Dilema
⊁ X - Backup de um sonho
⊁ XI - A gente se vĂȘ


— Eu consigo. Falta pouco...

— Alerta! Alto consumo de oxigĂȘnio. Reduzir hiperventilação.

— Só mais um pouco...

— NinguĂ©m... se importar! Ela nĂŁo... chegar a tempo! Vamos... e deixar...

— Eu não vou conseguir!

(bipe contĂ­nuo e estridente)

— Ah! Droga de alarme! Matriarca, desativa isso por favor!

— Sim, senhorita OlĂ­via. Boa noite. Seus sinais de irritação pĂłs-sono tem ocorrido com cada vez mais frequĂȘncia. A causa continua sendo pesadelos?

— Sim... O pesadelo... Meu coração está acelerado...

— Permaneça deitada por mais alguns minutos atĂ© que se acalme. Os sensores detectaram o prĂłximo alvo a ser reparado, mas ainda temos alguns minutos atĂ© que a nave o alcance.

— Melhor nĂŁo. Fiquei de fazer contato pra informar sobre o Ășltimo reparo... mas a essa altura, ele jĂĄ deve saber que estĂĄ pronto... Nossa, meus mĂșsculos estĂŁo doloridos.

— Já que levantou, não esqueça de escovar seus dentes. Gostaria que eu preparasse seu banho agora?

— Agora não, Matriarca. Prefiro fazer... Ai, minha perna... esse contato de uma vez.

— Nesse caso, gostaria de ouvir os detalhes do próximo reparo?

— Quero, mas resume pra mim, por favor.

— Um satĂ©lite de transmissĂŁo que cobre a regiĂŁo Latino-Americana foi atingido por destroços que circulavam a Ăłrbita em alta velocidade.

— Destroços? O que houve exatamente?

— Duas cápsulas de transporte de diferentes companhias privadas colidiram por conta de uma falha no redirecionamento de rota.

— Nossa! Quando ocorreu?

— A dez dias atrás. As cápsulas eram usadas para realizar turismo espacial e trafegavam entre Estados Unidos e o sítio de construção da colînia lunar.

— A Cidade... Quantos acidentes parecidos jĂĄ ocorreram nesse mĂȘs? Esse Ă© o terceiro? Quarto?

— Baseado nas Ășltimas atualizaçÔes do feedback de notĂ­cias espaciais, esse seria o sĂ©timo incidente dentro de um mĂȘs, totalizando desessete esse ano.

— NĂŁo parece estranho o nĂșmero de acidentes aumentar de uma hora para outra? Ainda mais causados por erros de rotas?

— NĂŁo tenho informaçÔes para formar uma opiniĂŁo conclusiva a respeito. Talvez atualizar meu nĂșcleo no prĂłximo pouso ajude a encontrar respostas para a questĂŁo.

— Nem... Deixa isso pra lá. Não quero ficar remoendo sobre esse assunto. Ative os paineis da cabine. Vou começar a chamada agora.

— Devo lembra-la que nĂŁo estĂĄ vestida de acordo com o protocolo e que a temperatura na cabine estĂĄ abaixo da mĂ©dia registrada no dormitĂłrio.

— Ah, Matriarca! NĂŁo Ă© como se eu fosse adoecer por estar sĂł de calcinha e camiseta. Sobre o protocolo, vocĂȘ jĂĄ sabe quem vai estar do outro lado. Isso Ă© algo que eu nĂŁo preciso me preocupar.

— Informe quando estiver pronta para começar.

(suspiro profundo)

— Espero que ele não encrenque com o meu pedido... Matriarca, podemos começar.

— Iniciando conexão com a Central... Criando arquivos de registros... Aguardando atendente...


I - Juntos, mas sozinhos 🔝

— Conexão com a Central concluída. Abrindo canal de comunicação.

— Travis, tudo certo aí?

— Agente Barzs, por favor. Identifique-se de acordo com o protocolo, como todos os demais agentes em serviço.

— Eu nĂŁo sou todos os demais, Travis, e eu jĂĄ sabia que vocĂȘ atenderia, jĂĄ que Ă© o Ășnico supervisor que cobre o turno da madrugada.

— OlĂ­via, eu preciso que se apresente corretamente para que os dados sejam gerados automaticamente no sistema de comunicação. VocĂȘ Ă© a Ășnica agente em campo que me faz armazenar essas informaçÔes manualmente.

— Travis, eu estou te fazendo um favor, ok? Eu sou a Ășnica que se conecta nesse horĂĄrio e, se eu nĂŁo te der trabalho, vĂŁo acabar te demitindo por ficar sentado nessa poltrona que jĂĄ tem a marca do seu traseiro. E tambĂ©m, nĂŁo Ă© como se vocĂȘ nĂŁo se animasse quando ligo. Afinal, vocĂȘ fica tĂŁo sozinho nessa sala que parece um cinema como eu fico nessa nave que parece uma lata de sardinha.

— Eu nĂŁo preciso te lembrar das diversas penalidades que jĂĄ recebeu e das que nĂŁo recebeu por eu interferir a seu favor. VocĂȘ sabe o quanto tenho me esforçado pra te manter aĂ­ em cima, OlĂ­via. NĂŁo tem sido fĂĄcil.

— Agente Olívia Barzs. ID 5521-D. Manutenção orbital. Código de registro 4782-0316. Feliz agora?

— Sim, muito. Registro aceito. Transmissão autenticada. Tem algo te incomodando, agente?

— NĂŁo, Ă© que... Eu sou muito grata pelo que vocĂȘ fez e faz por mim, mas agora eu preciso que me envie os meus arquivos relacionados ao meu tempo de serviço.

— Achei que tivesse feito o upload para a Matriarca assim que embarcou pela Ășltima vez. EstĂĄ preocupada com relação as suas fĂ©rias?

— A Matriarca Ă© uma inteligĂȘncia artificial limitada. AtĂ© onde eu sei, ela nĂŁo possui RAM dedicada pra armazenar arquivos confidenciais sobre ciclos. Se eu soubesse que um programa espacial tĂŁo cheio da grana usaria uma IA de babĂĄ eletrĂŽnica como sistema operacional, teria feito mais exigĂȘncias no contrato.

(pausa)

— Na verdade, quero saber quanto tempo falta pra eu poder descer e trabalhar em solo.

— Como assim em solo? Nunca achei que ouviria isso de vocĂȘ. Eu sabia que nĂŁo devia ter lhe contado que eu estava pra me aposentar.

— Para de graça, Travis. Eu não quero tomar seu cargo nem sua poltrona velha. Eu... não estou bem.

— Não me deixe preocupado, Olívia. No que está pensando? Não me diga que quer voltar pra ficar? Pense em tudo que fizemos pra que continuasse trabalhando conosco aí em cima.

— Eu sei de tudo isso, Travis! E eu reconheço que fui egoísta ao persistir em continuar trabalhando como agente depois do acidente e pîr sua carreira em risco, mas está sendo cada vez mais difícil. Está me quebrando por dentro... (pausa)

— Tudo bem. Eu vou enviar os arquivos.

— Obrigada. Eu sĂł queria informar que chegamos ao terceiro satĂ©lite. Vamos iniciar os reparos em T+30. Matriarca, localize minhas ferramentas externas?

— A caixa de ferramenta encontra-se no refeitório, ao lado da cafeteira, como de costume.

— Droga, Ă© verdade. Eu deixei lĂĄ assim que voltei do Ășltimo reparo.

— VocĂȘ nĂŁo pode deixar seus equipamentos fora do local definido. Essa nĂŁo Ă© a primeira vez que esquece essa caixa, senhorita OlĂ­via. Observação: EstĂĄ entrando no padrĂŁo de esquecimento humano. SugestĂŁo: Definir uma lista de conferĂȘncia com todos os passos necessĂĄrios para o sucesso de uma manutenção.

— Levando mais uma bronca da Matriarca?

— Travis, os arquivos. Não esquece.

— Pode deixar. Vou mandar.

— Matriarca, encerre canal de comunicação. Ative os monitores 3, 5, refeitĂłrio e armazĂ©m. Me avise quando os arquivos chegarem.

— Comandos aceitos.

— Iniciando mais uma missĂŁo... e torcendo pra que nĂŁo seja a Ășltima.


II - Laços eletrînicos 🔝

— Matriarca, hora de trabalhar. Em segundo plano, escaneie o satĂ©lite e me diga quantos e quais pontos estĂŁo danificados. Coloque os resultados no monitor do armazem assim que terminar. Em primeiro plano, realize um check-up das atuais condiçÔes de uso do traje e a quantidade de oxigĂȘnio que ainda hĂĄ nos tanques. Coloque os resultados no refeitĂłrio.

— Entendido. Gostaria de ativar a cafeteira e hidratar algo pra comer?

— Sim, isso seria ótimo. Qualquer coisa que me mantenha acordada lá fora.

— Senhorita OlĂ­via, tenha mais consideração com as provisĂ”es que possui. Temos uma previsĂŁo de quando serĂŁo reabastecidas, mas o descuido na escolha dos alimentos pode ser um risco. Leve mais a sĂ©rio sua rotina alimentar.

— Ok, me desculpe. Eu gostaria de uma caneca de cafĂ© preto com 3 cubos de adoçante, um sanduĂ­che de queijo com verduras e uma maçã. Pode ser?

— Sim, muito melhor.

— Matriarca, em que ano vocĂȘ foi instalada nessa cĂĄpsula? VocĂȘ tem alguma informação dos seus desenvolvedores originais?

— Fui desenvolvida originalmente pela Baby & Care Limitada durante os anos de 2077 e 2078. As modificaçÔes realizadas no nĂșcleo de minha inteligĂȘncia ocorreram no ano de 2093, apĂłs a AgĂȘncia de OperaçÔes Espaciais comprar o direito de meu uso.

— Entendi. EntĂŁo eu devia ter uns 10 anos quando vocĂȘ foi desenvolvida e... 2093 foi o ano que fui convocada pra realizar a minha primeira missĂŁo.

— Senhorita OlĂ­via, o checkup dos tanques foi concluĂ­do. Enviando informaçÔes para o refeitĂłrio. Devo alerta-la de que possuem apenas 63% da capacidade de armazenamento total. Recomendo o reabastecimento. Gostaria de realizar uma manutenção preventiva antes de ejetar?

— Se não fosse por causa daquele idiota...

— Senhorita Olívia?

— Droga. Eu não estaria presa nesse cubículo...

— Olívia!

— Oi! Pode repetir a pergunta?

— Gostaria de realizar uma manutenção preventiva?

— Não. Está tudo bem.

— Seus sinais corporais indicam irritação. Gostaria que eu reproduzisse suas mĂșsicas favoritas durante o procedimento?

— NĂŁo... NĂŁo Ă© nada. SĂł falta vestir a blusa, entĂŁo pode apagar as luzes da cabine e do dormitĂłrio. Acenda as luzes do deck, refeitĂłrio e do armazĂ©m.

— A temperatura do sanduíche está abaixo do normal para o consumo desejado.

— NĂŁo tem problema. O cafĂ© estando quente jĂĄ estĂĄ Ăłtimo. Obrigada, Matriarca.

— RevisĂŁo do traje espacial concluĂ­da. Boas condiçÔes de uso.

— Ótimo. NĂŁo vou precisar fazer ainda remendos e essa quantidade de oxigĂȘnio deve dar. SĂł vou ter certeza quando souber as condiçÔes do satĂ©lite.

— Escaneamento do satĂ©lite concluĂ­do.

— Bem na hora. Vou terminar o cafĂ© e ir. Matriarca, vocĂȘ viu minhas ferramentas?


III - Iniciar missão 🔝

— Senhorita Olívia, certifique-se de que as pulseiras de segurança das ferramentas estarão devidamente presas ao seu pulso quando estiver lá fora.

— Ok. Pelo que vi no monitor, temos trĂȘs pontos danificados. Um deles perdeu a comporta dos condutores elĂ©tricos. Algum risco de descarga durante a manutenção?

— O risco Ă© nulo. Todos os fios se encontram em perfeito estado.

— Tudo bem. NĂŁo deve dar muito trabalho. O oxigĂȘnio dos tanques deve dar pro serviço. Revise comigo todo o material que irei precisar. Quero ter certeza de que nĂŁo esqueci nada no armazĂ©m enquanto estiver com a porta do deck aberta.

— Importante ou nĂŁo, a probabilidade de vocĂȘ esquecer algo Ă© alta baseado no histĂłrico de relatĂłrios.

— Agora não, Matriarca. Já conversamos sobre isso. Eu estou me esforçando. Pare de me criticar e revise a lista de materiais que vou precisar.

— Quatro placas de contenção contendo um metro quadrado cada, pistola de solda, martelo com ponteira de pressĂŁo, braço-gancho, pistola de pregos com sessenta unidades de tamanho quinze, tanque de pressurização para as pistolas, cinto de segurança e braçadeiras para fixar os cabos elĂ©tricos antes de realizar qualquer operação no satĂ©lite.

— Droga, esqueci o cinto.

— EstĂĄ atrĂĄs de vocĂȘ, perto da porta externa do deck.

— Ok. Agora estou completa. Matriarca, deixe apenas as luzes do deck acesas. Coloque no meu visor o mapa de danos do satĂ©lite e marque os pontos com realidade aumentada.

— Tudo pronto para o início dos reparos. Não se esqueça de anexar o cabo de segurança ao cinto.

— Já estou fazendo isso. Tranque a porta interna e despressurize o deck. Desative a rotação gravitacional da nave e abra a porta externa assim que eu indicar.

— Iniciando despressurização.

— Tudo bem, Olívia. Não fique nervosa. Mantenha a respiração calma...

— Despressurização concluída. Desativando rotação gravitacional. Senhorita Olívia, seus batimentos cardíacos estão acima do normal. Devemos continuar?

— Sim, Matriarca. É sĂł a minha perna doendo por conta do peso do material. Vai passar com a ausĂȘncia da gravidade.

— Rotação gravitacional estabilizada. Aguardando novas instruçÔes.

— Já fizemos isso tantas vezes e ainda não consigo me acostumar. Sempre sinto como se as coisas lá fora não irão dar certo. Que, de uma hora pra outra, vou ser acertada por algum fragmento ou que algum mecanismo irá parar de funcionar.

— As condiçÔes para a manutenção do satĂ©lite sĂŁo favorĂĄveis.

— E essa dor na perna que, independente da prótese que eu use, não me deixa em paz. Como se me lembrasse constantemente que estou seguindo o caminho errado. Que eu não devia estar aqui
 Eu não sei, Matriarca.

— Notificação da Central. Os arquivos que vocĂȘ pediu ao Travis acabaram de chegar. Gostaria que eu os projetasse no seu visor?

— NĂŁo, agora nĂŁo. Isso pode esperar. O oxigĂȘnio jĂĄ começou a cair. Matriarca, abra a porta externa do deck.


IV - Tensão no vácuo 🔝

— Vinte minutos para que seu oxigĂȘnio alcance nĂ­vel crĂ­tico. VocĂȘ estĂĄ tomando mais tempo do que o habitual para realizar esse reparo.

— É... Eu estou cansada.

— Os diagnĂłsticos afirmaram que estava apta para realizar a manutenção. Como vocĂȘ se sente agora?

— NĂŁo Ă© isso, Matriarca. Estou cansada disso aqui. De consertar satĂ©lites de TV a cabo. De ficar orbitando a Terra. Antes eram coisas importantes como consertar os prĂłprios satĂ©lites da AOE ou atĂ© mesmo os de transmissĂ”es meteorolĂłgicas. AtĂ© levar suprimentos pro pessoal da Estação Espacial era melhor do que isso. Sou apenas uma funcionĂĄria terceirizada... Eu estou triste.

— Gostaria que eu projetasse em seu visor os dados enviados pelo Travis? Isso iria te animar?

— Deixa pra lá, eu já estou... Ah! Mas que droga!

— O que aconteceu, senhorita Olívia?

— Libere mais cabo, rápido. A pistola de pregos escapou da minha mão. Eu esqueci de prender a pulseira de segurança.

— Essa Ă© a Ășltima pistola de pregos que temos.

— Eu sei! Não precisa ficar lembrando! Continue liberando mais cabo. Não demoro pra alcançar com os propulsores da mochila.

— Senhorita OlĂ­via, vocĂȘ sabe que nĂŁo podemos perder mais uma ferramenta. Eu lhe avisei para ter certeza de que elas estivessem presas no seu pulso antes de começar a usĂĄ-las.

— Droga, Matriarca. Para de falar a mesma coisa sempre. VocĂȘ nĂŁo sabe a hora de parar?

— Se atente ao comprimento do cabo. Ele estĂĄ chegando no limite. Pelos meus cĂĄlculos, na velocidade que estĂĄ, vocĂȘ nĂŁo irĂĄ conseguir.

— Mas que inferno! Me deixa em paz sĂł um segundo! Eu jĂĄ estou indo o mais rĂĄpido que posso e mesmo assim vocĂȘ insiste em me encher a paciĂȘncia dizendo o quĂŁo esquecida eu sou, que nĂŁo vou conseguir fazer isso ou aquilo ou que eu dependo de vocĂȘ...

— Senhorita Olívia, diminua sua v...

— NĂŁo me diga pra falar mais baixo sĂł porque vocĂȘ foi programada pra cuidar de mim. Isso tudo Ă© um saco e essa sua função estĂșpida de se meter em tudo que faço Ă© um dos milhĂ”es de motivos que me fazem querer nunca mais trabalhar no espaço...

— Olívia, pare!

— Cala a boca! Eu prefiro mor... Ah!

— OlĂ­via! Seu oxigĂȘnio estĂĄ caindo drasticamente. O que aconteceu?

— Matriarca... A pistola... Eu bati com o visor na ponta do prego... Está rachando... Eu...

— Barzs, desacelere! Se continuar nessa velocidade, o cabo irá chegar no limite e o tranco será muito forte!

— Eu... Eu não consigo... Matriarca...

— Realizando conexĂŁo com a Central. Iniciando chamada de emergĂȘncia.

— Matriarca, Me ajuda, por favor!

— Conexão com a Central estabelecida. Abrindo canal de comunicação.

— Agente Barzs, informe a situação.

— Travis? Travis! Eu não quero morrer!

— O quĂȘ? OlĂ­via?!


V - Segunda mãe 🔝

— ConexĂŁo de emergĂȘncia reestabelecida. Tentando estabelecer sinais vitais.

— Matriarca, o que está acontecendo?

— A senhorita OlĂ­via sofreu um acidente ao buscar a pistola de pregos que havia perdido. Seu visor foi danificado e agora perde aos pouco o oxigĂȘnio que possui nos tanques do seu traje.

— Olívia, consegue me ouvir?

— Ela se encontra inconsciente.

— O quĂȘ? Por quĂȘ?

— Assim que seu capacete foi perfurado, ela entrou em choque e ficou desnorteada. Sem conseguir reduzir a velocidade com os propulsores, o cabo de segurança chegou ao limite e a força gerada pela parada repentina lesionou sua coluna e a fez desmaiar.

— Isso nĂŁo pode estar acontecendo... Matriarca, o que vocĂȘ estĂĄ esperando? Comece a recolher a OlĂ­via imediatamente!

— De acordo com meus cĂĄlculos, recolher a senhorita a uma velocidade em que ela ainda tenha oxigĂȘnio quando alcançar o deck faria com que seu corpo colidisse em algum ponto externo da nave, podendo lhe causar mais lesĂ”es ou danificar ainda mais seu traje com a força do impacto.

— Por tudo que Ă© mais sagrado, Matriarca. Faça alguma coisa!

— Recolher o cabo em uma velocidade segura para a senhorita faria com que seu oxigĂȘnio acabasse no meio do trajeto.

— NĂŁo Ă© possĂ­vel. NĂŁo temos como salvĂĄ-la? CĂ©us...

— Destrave a chave de segurança para que eu possa executar as duas açÔes ao mesmo tempo. NĂŁo irei conseguir ajudĂĄ-la com minhas atuais limitaçÔes.

— Isso vai queimar o seu nĂșcleo e vĂĄrias das suas conexĂ”es com a nave. Comprometeria o funcionamento do sistema e da distribuição de oxigĂȘnio.

— A senhorita OlĂ­via precisa ser salva. Minha função Ă© mantĂȘ-la viva e segura. Se eu nĂŁo for capaz de realizar as duas açÔes em primeiro plano, ela morrerĂĄ. Seus tanques de oxigĂȘnio estĂŁo em um nĂ­vel perigoso atĂ© para treinamentos.

— Certo, Matriarca. Estou destravando a chave de segurança. Isso irĂĄ te permitir executar quantas funçÔes precisar em primeiro plano. Ficarei monitorando suas atividades daqui.

— Iniciando recolhimento do cabo de segurança. NĂ­vel de oxigĂȘnio em dez por cento.

— A temperatura do seu nĂșcleo jĂĄ subiu quatorze graus. Me dĂȘ uma estimativa de tempo atĂ© que a OlĂ­via esteja em segurança no deck.

— Tempo estimado em um minuto e nove segundos. NĂ­vel de oxigĂȘnio em oito por cento.

— Sua temperatura está muito alta, Matriarca. Se continuar aumentando, irá derreter seus cabos e componentes!

— A senhorita OlĂ­via Ă© a prioridade. NĂ­vel de oxigĂȘnio em seis por cento.

— O que disse? Matriarca, a comunicação está ficando comprometida. Cancele o recolhimento um instante e ative os resfriadores.

— Ela estĂĄ prĂłxima ao deck. NĂ­vel de oxigĂȘnio em quatro por cento.

— Matri... Se auto-destruir... Cance...

— Fechando porta externa do deck. NĂ­vel de oxigĂȘnio em dois por cento.

— Alerta! IncĂȘndio detectado. Ativando extintores automĂĄticos. Iniciando desligamento de emergĂȘncia.

— Inici... Pressur... Perdoe, Senhorita.


VI - AEON 🔝

— Oi! Posso balançar com vocĂȘ?

— Pode sim, mas me empurra primeiro?

— TĂĄ bom. Qual Ă© o seu nome?

— Meu nome Ă© Olivia. Qual Ă© o seu?

— VocĂȘ pode me chamar de Aeon.

— Elton?

— A, e, o, n.

— Aeon? É seu nome mesmo ou Ă© apelido? Significa o quĂȘ? O meu significa azeitona, mas eu nĂŁo gosto de azeitona. Tem um gosto ruim. Eca!

— Haha! Azeitona Ă© engraçado. O meu nome significa era, que Ă© uma grande quantidade de tempo. TĂŁo grande que nĂŁo dĂĄ nem pra medir com os braços abertos assim.

— Mas por que seus pais colocaram esse nome em vocĂȘ? Eles querem que vocĂȘ viva mais de cem anos? SĂŁo vĂĄrios aniversĂĄrios, nĂ©?

— Bem, eu tenho um pouquinho mais do que cem. Tenho quase mil anos!

— Ah! Essa eu duvido muito! Vou perguntar pra sua mãe e ela vai me contar a verdade.

— Vim brincar sozinho. AĂ­ eu te vi aqui nesse balanço velho e quis te conhecer. VocĂȘ tambĂ©m nĂŁo estĂĄ sozinha?

— Eu nĂŁo. Eu estou com meu pai e meu tio, que nĂŁo Ă© meu tio de verdade. Ele Ă© o melhor amigo do meu pai, mas eu chamo de tio porque eu gosto dele tambĂ©m.

— E onde Ă© que eles estĂŁo agora?

— EstĂŁo ali conversando debaixo daquela ĂĄrvore grandona. Olha lĂĄ ele dando tchau pra gente! DĂĄ tchau tambĂ©m! Sabia que meu pai Ă© um astrĂŽnomo?

— AstrĂŽlomo? O que Ă© isso?

— NĂŁo! Um AstrĂŽnomo! Ele disse que estuda o Universo. Planetas, estrelas, luas, cometas. Essas coisas que ficam no cĂ©u.

— Ah! Mas eu tambĂ©m conheço o universo. Bem... pelo menos as partes que jĂĄ visitei.

— Mas eu duvido que conheça mais que o meu pai. Ele trabalha com vĂĄrios astronautas e um dia eu vou ser uma tambĂ©m!

— Um astrînomo ou um astronauta?

— Uma astronauta, oras. Quero ser uma exploradora espacial. Quero poder descobrir novos planetas e poder dar nomes a eles. Se eu descobrir um planeta novo, vou chamar ele de bolinha!

— E menina pode ser astronauta?

— Sim! Meu pai me falou que se eu estudar bastante, eu consigo.

— Se Ă© assim, acho que posso te ajudar. Mas pra isso precisamos voltar pra nave.

— Ah! VocĂȘ quer brincar de astronauta comigo? Sim! Vamos para a nave! Mas precisamos de uma missĂŁo.

— Hum... Um acidente terrĂ­vel aconteceu. VocĂȘ estĂĄ sozinha e em perigo. Mas podemos resolver as coisas se trabalharmos juntos.

— Não tem problema. A capitã Olívia e seu copiloto Aeo... nauta! Seu copiloto Aeonauta podem resolver qualquer problema.

— Gostei de vocĂȘ. Agora vamos deixar tudo isso para trĂĄs e dar inĂ­cio a missĂŁo. Feche os olhos e se imagine dentro da nave. Eu vou começar a contagem regressiva. Vamos partir em 3 segundos, OK?

— Tudo bem! Podemos decolar!

— Em trĂȘs... Dois... Um...

(silĂȘncio)

— Ah! Que dor! Minhas costas... Não consigo abrir os olhos. Onde eu estou?

— VocĂȘ estĂĄ flutuando no deck de sua nave, capitĂŁ OlĂ­via.

— Uma voz familiar... Quem?

— Sou eu, capitã. Seu copiloto.


VII - O acidente 🔝

— OlĂ­via, vocĂȘ sofreu uma fratura grave na coluna. Se nĂŁo for cuidada agora, perderĂĄ os movimentos dos braços e pernas. Em pouco mais de uma hora, vocĂȘ nĂŁo sairĂĄ mais do chĂŁo.

— Eu... NĂŁo entendo. EstĂĄ doendo muito. Quem Ă© vocĂȘ? Me responde...

— Eu posso me apresentar depois, apesar de jĂĄ ter feito isso antes. VocĂȘ quer a minha ajuda?

— Sim... Por favor...

— Certo. Continue de olhos fechados, mas nĂŁo pare de conversar comigo atĂ© que eu diga que terminamos. VocĂȘ nĂŁo pode perder a consciĂȘncia. SentirĂĄ muito frio nas costas e ouvirĂĄ o estalar de seus ossos. Vai ser um instante doloroso, mas passarĂĄ logo em seguida.

— Tudo bem...

— O que estava fazendo naquele satĂ©lite?

— Eu... Está gelado...

— Sim. É normal. Não se preocupe. Continue.

— Eu estava tentando consertar. É o que eu faço. Eu sou uma mecñnica.

— E vocĂȘ gosta do que faz?

— Eu... Não sei mais.

— Por que vocĂȘ se tornou uma mecĂąnica?

— Não era pra ser, mas um acidente na minha primeira missão me fez cair de exploradora espacial para suporte.

— Como aconteceu?

— Era a minha primeira missĂŁo fora de simuladores. Coletar amostras de objetos nĂŁo identificados que caĂ­ram ao redor da zona de construção da Cidade, perto de um dos mares da Lua. Éramos uma equipe de cinco agentes, entĂŁo nos dividimos em dois grupos. Eu era um dos trĂȘs que saĂ­ram pra coletar as amostras, enquanto os outros dois monitoravam... Esse frio estĂĄ insuportĂĄvel...

— Continue. Logo irá acabar.

— O outro grupo ficou responsável por supervisionar nossos passos e a região do sítio de exploração. Os agentes externos se dividiram para cobrir uma área maior e otimizar o tempo da missão. Mas uma discussão idiota minutos antes fez com que um dos membros na nave desligasse a comunicação comigo... me deixando... conectada apenas ao meu grupo...

— Olívia?

— Desculpa... Minutos depois, quando percebi que meus colegas estavam correndo para a nave, a comunicação foi refeita e tudo que consegui entender entre gritos era que destroços de uma nave atingida começaram a cair em nossa direção. Não consegui voltar a tempo. No meio do percurso, comecei a sentir o impacto dos destroços tocando o solo e então, eu apaguei... Quando acordei, estava numa maca de hospital, com uma perna a menos, manchas claras por todo o corpo e o Travis dormindo numa poltrona ao lado...

(pausa)

— A mesma maca onde meu pai ficou internado. A mesma poltrona onde passei noites fazendo companhia pra ele... antes dele morrer...

— Respire fundo e não solte o ar.

— Ok...

— Aguente firme. Isso vai doer.

— Ah!

— Pronto. Volte a respirar com calma. Logo o frio vai passar e vocĂȘ vai conseguir se mover.

— O que vocĂȘ fez? Colocou algo no lugar?

— Não exatamente. Eu fraturei seus ossos e os reestruturei, utilizando sua própria capacidade de regeneração. Só aumentei a velocidade do processo.

— Como? Quem Ă© vocĂȘ afinal?


VIII - Perdas e promessas. 🔝

— Eu sou a criança que vocĂȘ conheceu como Aeon em seu sonho. É como gosto de me apresentar, mas jĂĄ tive e terei muitos outros nomes. Ainda nĂŁo existe uma definição no seu planeta para o que eu sou, mas com base no seu conhecimento, eu seria apenas uma consciĂȘncia. Uma existĂȘncia que nĂŁo se limita Ă  matĂ©ria ou espaço, mas que tambĂ©m estĂĄ preso ao tempo, assim como vocĂȘ.

— O que...? Do que... está falando? Eu não entendo.

— VocĂȘ me vĂȘ com esse uniforme porque fomos astronautas em seu sonho. VocĂȘ sĂł Ă© capaz de me perceber porque me conectei a vocĂȘ atravĂ©s da sua lembrança mais vĂ­vida.

— VocĂȘ... entrou na minha cabeça? Leu minha mente?

— NĂŁo, Olivia. Durante minha exploração em seu planeta de origem, descobri que existe um diferente estado da consciĂȘncia quando criaturas vivas estĂŁo prestes a perecer. Foi por isso que vocĂȘ nĂŁo me percebeu antes.

— Ok... Isso nĂŁo Ă© um sonho... EntĂŁo quem vocĂȘ Ă©?

— Posso dizer que, assim como vocĂȘ, tambĂ©m sou um explorador espacial. Talvez nĂŁo dentro do padrĂŁo visual que vocĂȘ imagina, mas sou movido pela vontade de descobrir tudo que ainda nĂŁo foi descoberto. De ver coisas que nunca vi antes e de dar nomes Ă s coisas que nĂŁo os tĂȘm.

— O que aconteceu com a minha nave? E a Matriarca? E o Travis?

— Eu estava de partida do seu planeta quando me deparei com vocĂȘ flutuando desacordada entre o satĂ©lite e sua nave. Pelo que presenciei, a inteligĂȘncia artificial hospedada no computador de bordo requisitou o destravamento de uma chave de segurança e realizou diversas atividades ao mesmo tempo para lhe trazer com vida atĂ© o deck.

— Não... Não... Isso seria arriscado demais. Executar mais de uma operação em primeiro plano sobrecarregaria todos os componentes e... Só Travis e eu podemos dar essa permissão.

— Infelizmente foi o que aconteceu. Extintores de emergĂȘncia foram ativados, mas seu nĂșcleo jĂĄ havia sido danificado.

— NĂŁo... A Matriarca... Eu nĂŁo consigo acreditar! Eu tenho que ir para a cabine de controle! Por que vocĂȘ nĂŁo fez nada?

— Por que eu já existo há muito tempo. Esse tempo em que estamos conversando agora não se compara a tudo que já vi e experimentei. Eu não vim para interferir nas...

— Foi minha falha ter perdido a pistola... e não conseguir frear a tempo. E agora, saber que por minha causa a Matriarca se destruiu... Droga, não consigo levantar...

— Olivia, vocĂȘ estĂĄ fraca...

— Não veio para interferir? Por que não me deixou morrer?!

— Sim, eu poderia ter ignorado sua sĂșplica... como fiz com tantas outras nessa existĂȘncia. Ter deixado seu corpo inerte nesse deck perdendo o pouco de oxigĂȘnio atĂ© que ele acabasse. Mas vocĂȘ nĂŁo estava pronta pra aceitar o fim. O seu desespero ao quebrar seu visor mostrou isso. JĂĄ aqui dentro, vocĂȘ aceitou minha ajuda mesmo nĂŁo sabendo quem ou o que eu era.

— Eu... estava com medo. Medo de não conseguir honrar a promessa que eu fiz pro meu pai.

— Mas vocĂȘ se tornou uma astronauta.

— NĂŁo Ă© sobre isso.

(respiração profunda)

— Quando meu pai foi diagnosticado como portador de uma doença terminal, nĂŁo imaginava que ele teria tĂŁo pouco tempo atĂ© o dia da sua morte. Durante as noites de internação, Travis e eu revezĂĄvamos para nĂŁo deixĂĄ-lo sozinho. Em uma dessas noites, passamos uma madrugada inteira conversando sobre o meu futuro. Ele me lembrou de quando fomos a pracinha, a mesma onde vocĂȘ apareceu... E me deu minha primeira luneta pra que eu pudesse ver a estrela da sua primeira pesquisa.

— Foi naquele dia?

— Numa crise de choro, prometi que iria visitar cada corpo celeste que ele havia estudado... É bobo, eu sei, mas ele me deu um sorriso tão bonito e disse que, independente de onde eu estivesse, estaria comigo em cada novo planeta...

(enxuga lĂĄgrimas)

— Tudo que eu queria era mostrar pra ele o quĂŁo longe eu havia chegado sem a sua companhia, sendo filha de latinos num mundo cheio de preconceito, tendo uma memĂłria que falha atĂ© nas tarefas mais simples, o vitiligo que desenvolvi com o estresse pĂłs-traumĂĄtico deixando minha pele cada dia mais sensĂ­vel, sofrendo com dores por ter que carregar uma perna mecĂąnica pesada, sem ter como pagar por uma prĂłtese leve... mas nem isso eu posso.

— E se te dissesse que ainda pode manter a promessa que fez ao seu pai?

— O quĂȘ?

— O quĂŁo longe vocĂȘ iria, sabendo disso, OlĂ­via?


IX - Dilema 🔝

— Aeon... Sei lĂĄ. A Ășltima coisa que eu preciso agora... É alguĂ©m me dizendo o que fazer. O que quer que seja, isso pode esperar, porque agora, eu tenho que descobrir se sobrou algo da pane no computador central e verificar se o sistema gravitacional estĂĄ funcionando. Eu nĂŁo estou aguentando o peso do meu corpo...

— Tudo bem. Vá devagar.

— Eu consigo ver daqui que tem luzes acesas no painel da cabine. Isso Ă© bom... VocĂȘ consegue me ajudar a chegar lĂĄ? Preciso pegar uma lanterna no painel. Vou aproveitar as luvas do traje pra manusear os cabos. Se algo estiver em curto, vou estar protegida.

— Claro. Cuidado com a rampa do corredor...

(observando...)

— Por que há tantos monitores espalhados pela nave?

— Servem como quadros de recados. Eu tenho dificuldade de lembrar de certas coisas, então a Matriarca projetava todo tipo de informação relevante nos monitores... Ela não precisava ter feito isso...

— Ela nĂŁo hesitou um instante sequer ao sobrecarregar o sistema. Talvez uma inteligĂȘncia artificial diferente nĂŁo teria feito o mesmo.

— Matriarca... atĂ© obsoleta me ensina uma lição ou outra... Bem, pode me deixar aqui. Eu sĂł vou tirar o capacete pra poder enxergar melhor no meio dessa fumaça.

(um tempo depois)

— Descobriu algo?

— (murmura algo irreconhecível).

— Quer que eu segure sua lanterna para não ter que usar a boca?

— NĂŁo, eu jĂĄ terminei aqui embaixo. Os danos foram bem mais sĂ©rios do que eu imaginei, mas graças ao sistema de preservação de vida, diversas configuraçÔes essenciais ficaram intactas: controle da nave, sistema de gravidade e distribuição de oxigĂȘnio.

(pausa)

— Mas infelizmente eu nĂŁo tenho como realizar nenhum tipo de contato com a Terra. Tudo que me resta agora Ă© sentar, descansar e entĂŁo pensar em como voltar. O combustĂ­vel parece ser o suficiente.

— O que acontece caso volte?

— Pra começar? Ser demitida. Sem dĂșvidas quanto a isso. AlĂ©m de nĂŁo reparar o satĂ©lite e perder as Ășltimas ferramentas que eu tinha, destruĂ­ minha inteligĂȘncia artificial e a nave quase foi junto. Talvez eu seja presa por alguns anos por nĂŁo ter como pagar os danos que causei, mas Ă© certo que o Travis vai perder o emprego. Ele arriscou a carreira por mim quando pedi pra voltar ao espaço... E justo no Ășltimo ano antes da aposentadoria...

(sussurra um palavrĂŁo)

— Falando assim, ficar aqui atĂ© o oxigĂȘnio acabar nĂŁo estĂĄ parecendo um plano tĂŁo ruim... De qualquer jeito, tenho que encarar essa situação. NĂŁo tenho outra opção.

— Mas OlĂ­via, vocĂȘ tem uma outra opção. Ainda pode realizar seu sonho e cumprir a promessa que fez pro seu pai.

— Eu já disse que desse discurso eu não preciso, Aeon! Me bastam os do Travis e da Matriarca... Só o Travis agora.

— OlĂ­via, me escute por um momento. Isso nĂŁo Ă© um sermĂŁo. É uma segunda chance e vocĂȘ nĂŁo terĂĄ uma terceira. No seu sonho do balanço, eu disse que poderia te ajudar e ainda posso.

— NĂŁo existe outra opção. SĂł existe uma e Ă© justamente a que eu nĂŁo queria que existisse. Eu nĂŁo posso viver aqui pra sempre.

— VocĂȘ pode! E Ă© isso que eu estou tentando te dizer esse tempo todo...

(pausa)

— Preste atenção. Da mesma maneira que manipulei sua matĂ©ria para recuperar seus ossos, posso me desfazer dela, preservando apenas a sua consciĂȘncia. VocĂȘ se tornaria etĂ©rea, como eu. Livre para ir e vir para onde quisesse.

— Mas... como isso Ă© possĂ­vel?!

— Na sua atual condição, ou vocĂȘ retorna para a Terra e encara todas as consequĂȘncias dos seus atos, ou me acompanha nas descobertas desse universo e quem sabe atĂ© de outros. Mas isso te custarĂĄ o preço que talvez seja alto demais pra vocĂȘ.

— Claro... Nada Ă© de graça nesse mundo. NĂŁo poderia ser diferente fora dele.

— Tudo que vocĂȘ precisa fazer Ă© tirar sua prĂłpria vida.

— Como Ă© que Ă©?! VocĂȘ enlouqueceu?!


X - Backup de um sonho 🔝

— Aeon, para... Isso nĂŁo Ă© uma brincadeira. Me deixa configurar a rota de volta...

— Exato, OlĂ­via. NĂŁo Ă© uma brincadeira.

— Eu nĂŁo acredito em vocĂȘ... Na verdade, nĂŁo acredito mais em mim! Eu sĂł posso estar alucinando, pra estar tendo essa conversa com um... sei lĂĄ, com vocĂȘ! E vocĂȘ ainda me induz a acabar com tudo aqui e agora?

— NĂŁo se trata de encontrar conforto na morte, muito menos de adiĂĄ-la. JĂĄ expliquei que existe um estado de consciĂȘncia entre a vida e a morte — e Ă© nesse estado que vocĂȘ permanecerĂĄ.

— VocĂȘ nĂŁo tem ideia do que estĂĄ dizendo. NĂŁo tem ideia do que estĂĄ me pedindo.

— Tenho plena noção. Mais do que qualquer criatura que tenha nascido no seu planeta. Minha presença aqui, agora, Ă© algo que nem vocĂȘ, nem ninguĂ©m da Terra consegue — ou conseguirĂĄ — explicar. O que vocĂȘ irĂĄ experimentar nĂŁo serĂĄ vivido por mais ninguĂ©m. O destino da raça humana Ă© a extinção.

— Eu sei... Eu sei que as coisas lĂĄ embaixo estĂŁo uma porcaria, mas essa Ă© uma situação muito difĂ­cil de acreditar. Toda essa situação Ă© difĂ­cil de entender! Nada parece real...

— Agora que vocĂȘ configurou o retorno da nave, vocĂȘ passarĂĄ pela exosfera dentro de algumas horas. Eu jĂĄ vi tudo que poderia ver na Terra. NĂŁo tenho motivos para voltar.

— O que vocĂȘ vai fazer? Pra onde estĂĄ indo?

— Vou te deixar sozinha. Use esse tempo pra refletir a respeito. Se quiser vir comigo, diga meu nome e que estĂĄ pronta. Do contrĂĄrio, continue sua jornada, mas nĂŁo tente explicar a minha existĂȘncia quando voltar. Eles nĂŁo irĂŁo acreditar.

— Droga... Eu nĂŁo consigo pensar direito... Mas nĂŁo tem nem no que pensar! Isso Ă© loucura! Eu lutei tanto pra chegar atĂ© aqui...

(limpa nariz escorrendo)

— Eu nĂŁo posso abrir mĂŁo da minha vida assim. Mas voltar nĂŁo vai me deixar as coisas mais fĂĄceis... Como eu queria poder conversar com o Travis agora. SerĂĄ que consigo acessar os arquivos que ele me mandou? Talvez, se eu ler algo lĂĄ debaixo, eu consiga me acalmar... O que Ă© isso? Um vĂ­deo entre os arquivos que pedi?

(ruĂ­dos de estĂĄtica)

— Ei, Travis! Já gravou a Olívia no balanço?

— Se acalme, rapaz! JĂĄ Ă© a terceira vez que vocĂȘ pergunta. Ainda estou gravando! Haha. Sua filha estĂĄ cada dia mais esperta. Eu fico bobo toda vez que reencontro vocĂȘs. NĂŁo vai demorar muito pra ela tomar seu lugar na AgĂȘncia Espacial.

— Ah! Como eu gostaria, mas o que eu tenho de pĂ©s no chĂŁo, a OlĂ­via tem de cabeça nas nuvens. Na verdade, acima delas! Eu comentei que na semana passada, ela me disse que quer ser uma astronauta? Uma exploradora espacial?

— Isso! Travis, um! Papai ciumento, zero!

— Para de graça! Uma hora vocĂȘ vai ter que sossegar essa bunda na Terra, casar e ter filhos. Eu viro o jogo quando esse dia chegar!

— Nem tão cedo, meu amigo... É difícil demais manter qualquer tipo de relação com tantas idas e vindas à estação espacial, ainda mais sendo membro da equipe de exploração. Elas não entendem que meu coraçãozinho pertence às estrelas!

— VocĂȘ Ă© um sacana, isso sim! Haha...

(pausa)

— Falando em futuro, Travis... Eu fui buscar o resultado dos exames.

— Quer que eu pare de gravar?

— Pode continuar. Eu acho que vocĂȘ tem razĂŁo. Pelo que vi nos papĂ©is, nĂŁo vou ter tempo de empatar esse jogo.

— Não...

— Travis, eu queria te pedir um favor.

— Caramba, qualquer coisa!

— Se as coisas complicarem pra mim e eu nĂŁo conseguir estar com a OlĂ­via pra ajudĂĄ-la a chegar onde quer que ela queira, vocĂȘ cuidaria dela por mim?

— NĂŁo diga bobagens! Claro que vocĂȘ vai conseguir. Vai ver essa menina entrar pra uma faculdade, se tornar uma astronauta e ter um ataque... Desculpa, e ficar feliz ao vĂȘ-la deixar a atmosfera, pilotando um foguete.

— Travis, por favor. Isso Ă© importante...

— Tudo bem... Pode contar comigo.

— Obrigado... amante das estrelas! Haha!

— Mas vocĂȘ Ă© um brincalhĂŁo mesmo, nĂ©?

— Olha lĂĄ a OlĂ­via dando tchau! EstĂĄ gravando isso, nĂ©?


XI - A gente se vĂȘ 🔝

— Aeon... Aeon!

— Diga, Olívia.

— VocĂȘ disse que nĂŁo se limita Ă  matĂ©ria e ao espaço, mas que estĂĄ preso ao tempo... O que isso quer dizer?

— VocĂȘ me vĂȘ como alguĂ©m usando um traje espacial, mas sĂł porque isso facilita nossa interação... Eu posso ser qualquer coisa — ou coisa alguma. InvisĂ­vel... como vocĂȘ pode nĂŁo ver.

— Pode reaparecer... Eu não tenho mais neurînios pra ficar lidando com esse tipo de coisa.

— VocĂȘ me vĂȘ aqui ao seu lado...

— Mas tambĂ©m posso estar no deck...

— Ou na cafeteria.

— Olha, jĂĄ estĂĄ difĂ­cil lidar com um Aeon. TrĂȘs eu nĂŁo dou conta...

— Posso ser o que quiser, estar onde quiser — mas sempre no instante presente. Não posso visitar o passado ou o futuro, mas posso reviver memórias e deduzir o que está para acontecer. Como lhe disse antes, eu já existo há muito tempo.

— Reviver lembranças?

— Sim, mas levaria anos, mesmo eu lhe acompanhando.

— E se... E se eu aceitasse sua proposta, mas decidisse ficar?

— Sem um guia, vocĂȘ se perderia em si apĂłs a transição. Ficaria presa nesse instante... atĂ© aprender, sozinha, como sair dele. Seu cĂ©rebro lhe diria para andar, mas vocĂȘ nĂŁo teria mais pernas. Lhe diria para tocar, mas vocĂȘ nĂŁo teria mais mĂŁos e dedos. Lhe diria pra enxergar, mas nĂŁo teria mais olhos. Passaria por um longo estado de desespero, assim como eu passei no inĂ­cio... Mas eventualmente, vocĂȘ entenderia, como eu entendi.

— Certo...

— O que vocĂȘ decidiu, OlĂ­via?

— Aeon, eu jĂĄ te devo muito por ter me salvado, mas... posso te pedir um Ășltimo favor?

— Está pronta?

(folhas balançam suavemente)

— OlĂĄ, Travis. O que vocĂȘ irĂĄ ouvir agora Ă© uma gravação, entĂŁo nĂŁo se incomode em tentar responder. Eu sobrevivi ao acidente e estou bem, apesar de ter perdido a Matriarca e algumas funçÔes bĂĄsicas do computador de bordo, como a comunicação com a Central. Imagino como as coisas devem estar por aĂ­, mas esse contato precisa ser mantido em sigilo. Falando em segredos, eu vi o vĂ­deo que me enviou. Eu sinto muito, Travis. Por todas as situaçÔes que te fiz passar... Ao mesmo tempo, sou completamente grata por tudo que fez por mim e pelo meu pai. Eu prometo que a partir desse instante as coisas serĂŁo diferentes. Nesse exato momento, a nave deve estar entrando na atmosfera da Terra e como eu sei que vocĂȘ Ă© um desocupado mesmo, vai ter bastante tempo pra trabalhar no caso do meu Ășltimo acidente. TambĂ©m nĂŁo precisa se preocupar com seu emprego, jĂĄ que eu nĂŁo pretendo tomar seu lugar. Na verdade, eu nĂŁo vou estar nessa lata velha quando ela entrar no planeta. Desde o meu acidente na Lua, a minha vida tem seguido em direção contrĂĄria a que eu gostaria de seguir e, pĂŽr os pĂ©s no chĂŁo da Terra novamente seria continuar negligenciando tudo o que vocĂȘ e meu pai fizeram por mim. Eu encontrei um meio de seguir em frente, mas isso Ă© algo que uma pessoa enraizada na ciĂȘncia como vocĂȘ nĂŁo acreditaria ou compreenderia a essa altura da vida. Sendo completamente honesta, nem eu compreendo direito.

(respira fundo)

— VocĂȘ se lembra quando assistimos aquele desenho do menino que morava com uma rosa em um planeta distante? Da serpente que o ajudou a voltar pra casa? Digamos que eu encontrei a serpente. Eu nĂŁo sei se terei a oportunidade de revĂȘ-lo, Travis, mas se em algum momento da minha existĂȘncia a oportunidade surgir, juro que volto o mais rĂĄpido possĂ­vel. Por agora, peço apenas que acredite em mim como tem feito todos esses anos. Apesar de todas as confusĂ”es que criei a vocĂȘ, nunca lhe disse mentiras e isso Ă© algo entre nĂłs que eu tenho muito orgulho. Enfim... Obrigado mais uma vez, Travis. Por ser o meu segundo pai e por me ajudar a realizar meus sonhos. A gente se esbarra por aĂ­, seu velho...

— Eu sinceramente não tenho ideia do que aconteceu lá em cima entre o momento que perdi contato com a Matriarca e a interceptação da nave da Olívia...

— Travis, meu querido. Vamos nos atrasar pra buscar o nosso filho na escola.

— Eu já estou indo!

(pausa)

— Fico feliz que tenham lhe colocado na regiĂŁo do bosque e que estĂŁo cuidando bem da sua lĂĄpide. Eu nĂŁo me sentiria nada bem dentro de um mausolĂ©u. VocĂȘ sempre gostou desse contato com a natureza. Deve ser bom sentir que faz parte dela de verdade agora...

— Amor! Vamos!

— EntĂŁo Ă© isso. Achei que gostaria de saber as Ășltimas notĂ­cias da sua filha. Em breve farĂŁo um enterro simbĂłlico, mas sĂł quando os resultados da perĂ­cia saĂ­rem, e vocĂȘ sabe como isso leva tempo. Confesso que ainda estĂĄ difĂ­cil de assimilar tudo isso, mas jĂĄ faz meses desde que recebi essa mensagem no celular... Comecei a acreditar que ela realmente encontrou um meio de seguir seus sonhos e cumprir a promessa que fez a vocĂȘ.

(pausa)

— Bem... vou colocar a mensagem impressa e as flores aqui no cantinho. Tenho que buscar o Oliver no colĂ©gio. Acredita que ele estĂĄ interessado em estudar as estrelas? É, meu amigo... Parece que no fim das contas, vocĂȘ conseguiu empatar o jogo.


  1. Esse conto foi originalmente escrito durante o mĂȘs de Março de 2019, como uma forma de desafio pessoal. A ideia era escrever uma histĂłria em 31 dias, publicando um novo capĂ­tulo no Instagram a cada 3 dias. AlĂ©m do prazo, tambĂ©m havia a limitação de usar apenas 4 pĂĄginas de carrossel por publicação, deixando o conto mais enxuto e sem brechas para detalhes. Essa nova versĂŁo(em revisĂŁo) contempla a real visĂŁo do escritor, ignorando todas as limitaçÔes do desafio e realizando ajustes para que a historia seja fidedigna as ideias originais do autor.